Agricultores vivem o desafio de plantar e colher ao mesmo tempo no MT

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A região de Lucas do Rio Verde cresce dez vezes mais que a média do Brasil. Quase mil pessoas trabalham na fazenda Boa Esperança.

Safra de grãos a pleno vapor e o Globo Rural foi a Mato Grosso ver a movimentação no campo. Em vez de números, Nelson Araújo mostra os rostos das pessoas que fazem a safra.

 

Recordei as palavras que dizem que ‘tudo tem um tempo: tempo de nascer, tempo de morrer; de sorrir e de chorar… Há o tempo de plantar e o de colher!”. E me veio uma pergunta: Será que a agricultura brasileira está desafiando o ditado bíblico?

Os outros países têm uma safra anual. Faz-se o plantio; depois, vem a colheita. Aqui, é diferente. O Globo Rural foi ao estado que é campeão na produção de grãos no Brasil, o Mato Grosso. No município Ipiranga do Norte, fomos até a propriedade de um grupo que planta setenta mil hectares por ano.

Antes, o período de colheita  levava 60, 70 dias. Hoje, não pode passar de um mês. É uma  luta contra o relógio. Uma operação de guerra. O corre das colhedeiras, forma um colorido vivo com as lavouras secas. Tem máquina que chega a custar um milhão de reais.

Alex Aparecido Brito faz parte da nova geração de trabalhadores rurais que nunca mexeu com foice ou enxada. Aprendeu o ofício já na tecnologia moderna, realizando aquilo que é chamado de agricultura de precisão.

Dirigir a máquina é apenas um detalhe. Na cabine, é possível comandar cerca de trinta funcões.

As lâminas rotatórias cortam os pés de soja que vão ser esmagados por rotores. O grão é desbagoado e os restos todos jogados num picador. Automaticamente,  o pó é espalhado pela parte de trás, para fertilizar novamente o campo. Correntes de ar separam as impurezas dos grãos que assim alcançam um grande compartimento de carga.

Máquinas cheias… elas vão até os caminhões graneleiros. Um braço bombeia cem litros por segundo. Em minutos a colhedeira é descarregada. E aí começa tudo outra vez. Num serviço que exige muita combinação de rapidez com destreza.

Orcival Guimarães é o dono da fazenda onde o Alex trabalha. Nascido na roça, estudado só até o segundo grau, empreendedor intuitivo, encabeça o grupo que, no ano agrícola, deve colher trezentas mil toneladas. Ao comando de Orcival estão agora quase mil pessoas.

Gente que ele não chama nem de funcionário nem de empregado. “Você tem que ter o seu colaborador, como parceiro”, diz.

O principal aliado e também o principal adversário de Orcival no entanto, está no céu. Porque ele precisa de estio, em pleno tempo das águas.

Nesta região do Mato Grosso, o período das chuvas chega a ser uma conflagração. É trânsito prejudicado, quando não impossível nas estradas, alagamento nas cidades, inundação no campo, lavouras encharcadas, máquinas paradas no campo.

Com chuva não se colhe. Mas, no intervalo dela, sim.  Diante de duas alternativas:  você perde ou perde, qual é a escolha. O dia a dia da safra com  frequência traz esse tipo de dilema. Pra ser colhido o grão de soja não basta estar seco. Lá no silo de armazenagem existe um aparelho que mede a umidade do grão. O ideal é que fique entre 14 e 16%.

Chuva em excesso faz a baga seca apodrecer No pé.  Por isso, em qualquer brechinha de estiagem, as colhedeiras voltam a rodar.

Nos galpões de armazenagem, a soja vai caindo dos graneleiros feito cachoeira em tempo de enchente. Mas, essa cascata de grãos, na chuvarada, acaba desclassificada. O produtor recebe menos por ela. Entre outras coisas, porque ela vai exigir secação forçada.

Aí é que entra o trabalho do Forneiro que é quem alimenta a fornalha do silo – o calor leva ar quente pra enxugar o grão.

Por trás da roupa de proteção eu descubro um maranhense que viajou três dias de ônibus para arranjar esse serviço de tacar fogo na fogueira, em dias de trinta e cinco graus à sombra.

José Raimundo Santos tem um pequeno sítio no Maranhão. Mexe com roça, cria galinha, porco, coisas que não estavam rendendo o suficiente pra sustentar a família. Além do emprego, outra coisa deixa José Raimundo feliz: a esposa está pra vir visitá-lo.

A safra de grãos no Brasil ainda é um universo predominantemente masculino. Mas, tem mulher na soja também. No caso, a Tatiane Morais Batista que nasceu em Santa Catarina, mora em São Paulo e veio agora nesta colheita 2017/18 trabalhar no MT.

Tatiane faz parte de um clã de caminhoneiros. Num momento em que a carreta dela fica atolada numa borda de talhão, advinha quem vai ajudar? O marido. Adriano Agostinho, que ela chama de Badeco também  é caminhoneiro.

Numa outra hora, em que a caminhoneira calmamente espera a vez de carregar as caçambas, aparece um rapaz: Moisés Agostinho, filho dela. Igualmente, caminhoneiro. Estreando na profissão, influência não lhe faltou: os pais, os irmãos, os tios do Badeco também são do ramo.

A família Tati, Badeco e Moisés integra um grupo de dezenas de caminhoneiros que tem uma relação diferente com a propriedade. Na frente de um silo, converso com alguns deles.

Funciona assim: o caminhoneiro faz um contrato mensal fixo com a fazenda e ganha um extra de comissão por tonelada que transporta da lavoura para o silo. Orcival explica que essa foi a forma que encontrou pra contar com o caminhão no exato momento em que precisa.

O caminhão, na safra, é um elo importantíssimo que que dá força ao elo fundamental da corrente, que também é terceirizado.

As fazendas trabalham com 120 colheitadeiras. De propriedade deles mesmo são apenas têm 20. O resto é tudo alugado.

Uma safra dessa dimensão só se faz graças às parcerias… “Os dois tem que ganhar. Mesmo que seja pouco, divide esse pouco”, explica Orcival.

Na boleia da carreta de sete eixos, a parceira Tatiane troca de marcha apostando na escolha. Trabalha descalça para não sujar o tapetinho de crochê e preservar o ambiente que é sua estação de trabalho mas também seu quarto, sua sala, seu lazer e descanso.

O desafiante colhe-e-planta, planta-e-colhe no Brasil central

GLOBO PLAY

Os agricultores de Mato Grosso plantaram nove milhões e meio de hectares de soja. Se toda a soja plantada fosse um campo de futebol, a fazenda que o Globo Rural visitou seria um pedaço menor que a pequena área, onde fica o goleiro.

Na entrada de Lucas do Rio Verde tem a estátua de um porco e a de uma galinha. Reverência à importância da proteína animal por aqui. Mas, o símbolo da cidade é a ema, ave que enxerga longe, anda a passos largos, como a região que cresce dez vezes mais que do a média do Brasil.

O aguaceiro é obstáculo também pra outra maratona paralela à safra de verão. Não só as colhedeiras ficam paradas e diversas máquinas não rodam.

André Luís Cirilo, gerente operacional das fazendas Boa Esperança explica a estratégia que veio dar musculatura à agricultura brasileira, abrindo a possibilidade de se fazer duas safras anuais o que exige que nesta época do ano, plantio e colheita sejam feitos ao mesmo tempo. “Se você sair muito fora dessa janela de plantio, você chega lá na frente e colhe muito mal”, diz André.

Tal como no futebol, para a curta temporada de troca de jogadores, na agricultura também se usa a palavra janela para descrever o brevíssimo período de se tirar uma cultura e, imediatamente, pôr outra no lugar.

Numa visão mais panorâmica das propriedades, a sede incrustada nos campos de lavoura, a primeira impressão é de calmaria… porém, o serviço fervilha no colhe-e-planta, planta-e-colhe, muitas vezes no mesmo talhão. Variedades de sementes foram desenvolvidas para permitir esse jogo.

Soja madurinha, dois meses antes do habitual; algodão plantado dias atrás e já botando as folhinhas de fora… Tudo no mesmo lugar… um europeu, um canadense, ia achar isso inacreditável.

Claro: para dirigir, balancear, regular, consertar, fazer revisão, reparar estradas, batalhões de gente treinada se dispersam pelos campos e galpões de manutenção. Alguns fazendo turnos dobrados.

Todo o operacional contando com a retaguarda de dezenas de técnicos em administração, contabilidade, markenting, vendas, recursos financeiros.

Para atender a demanda de comida para todos os funcionários, uma outra frente também se movimenta bastante nos períodos de colheita. São três e vinte da tarde e nós estamos na cantina de uma das fazendas do grupo já no município de Lucas do Rio Verde. No momento
tem dez pessoas aqui na cozinha preparando a janta.”

Luciene Rodrigues foi importada de São Paulo para comandar a equipe da cozinha. “Na acolheita da soja ou do algodão nos servimos até mil refeições por dia”, conta.

A equipe de Luciene trabalha sob a orientação de uma nutricionista: a Magali Batistella Silva, que já se apresenta como um autêntica “matucha”- a migrante gaúcha que se sente matogrossense, também.

Onde tem fartura de comida, aparecem os indesejáveis. O que se dá, não na cantina, mas na lavoura: o plantio contínuo, mesmo que alternando espécies, é um prato cheio para pragas e doenças.

Orcival conversa com o gerente de uma fazenda sobre uma dor de cabeça recente que se soma às dúzias de pragas e doenças das culturas de grãos: é a soja louca. De um jeito esquisito, a planta se mantém sempre verde, mesmo quando se passa o dessecante para a colheita, e não frutifica.

A disfunção da planta é causada por um nematoide aéreo de nome aphelinchoides.

O controle biológico é uma saída para reduzir o forte impacto dos agrotóxicos. A segue as ambientais. Por exemplo: aviões agrícolas, pulverizadores de herbicidas, inseticidas, passaram a ser lavadas e carregadas em um pátio de concreto. Os poluentes das caldas químicas são tratados em recipientes impermeáveis. Um bombardeio de ozônio por oito horas desprende as moléculas venenosas. O destino final é o tanque de evaporação. Quer dizer: o que antes ia para o solo e o lençol freático volta para o ar na forma de gases.

Se o aguaceiro que ameaça desabar nos permitir, vamos ver outra novidade ambiental.

A chuva que atrapalhou a colheita, por excessiva foi vista como incômoda no plantio, se mostrou muito bem vinda nas faixas de recomposição nas bordas dos talhões, na divisa com a reserva legal.

Beirando as lavouras, a gente vê banana, ciriguela, mamão… entre outras frutíferas e árvores nativas do cerrado.

O gerente da Boa Esperança, Marco Mertz, esclarece que  isso não é reflorestamento, nem restauração de Reserva Legal ou a app – esses problemas já foram resolvidos há tempos.

A área não é grande – dez hectares. Mas, já rendeu até um prêmio ambiental à propriedade. Dez mil árvores foram plantadas até agora.

Por uma questão de gosto pessoal, as áreas das sedes das fazendas, sejam em torno de oficinas, escritórios… sejam nas áreas dos alojamentos e das vilas de casas de funcionários, o ajardinamento foi feito com uma palmeira típica da terra do Orcival Guimarães.

O guerobal, de fato, torna tanto as áreas de trabalho como as partes residenciais mais aprazíveis. Embora, por via das dúvidas, todos os ambientes estejam equipados com ar condicionado para que o pessoal não se indisponha com o calorão do Brasil central.

Caminhando entre as guerobas me pego pensando num ditado antigo dizendo que quando a oferta é muito o santo até desconfia. Num setor que é sempre acusado de cometer irregularidades, chama a atenção uma fazenda que não explora o trabalhador e manifesta respeito pelo meio ambiente. É a única fazenda propriedade aqui fazendo isso? Não. Todas fazem? Não. Mas muitas já perceberam que aliar as boas práticas agrícolas às boas práticas ambientais e sociais pode até diminuir o lucro. Mas, traz benefícios.

“O capitalismo selvagem quase, que só visa luvro, eu acho que não é legal. Cada um faz o que quer na vida, mas não é legal. Você tem que ter o seu colaborador parceiro, ele ter uma moradia boa, alimentação boa, um local onde ele se sinta à vontade, onde ele se sinta valorizado”, declara Orcival.

Publicado por, Globo Rural

 

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