Argentina perde um “Paraná inteiro” na safra de grãos

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Os efeitos da pior seca dos últimos 30 anos foram confirmados pela Bolsa de Comércio de Rosário, que prevê safra 17 de milhões de toneladas abaixo do previsto

Falta de chuvas afligiu mais de um milhão de hectares

“O tango é um pensamento triste que se pode dançar”. Foi assim que o poeta portenho Enrique Discépolo definiu o ritmo mais tradicional da Argentina. A melancolia, neste ano, poderá buscar inspiração nas lavouras do país vizinho, terceiro maior produtor de grãos do mundo.

O Ministério da Agroindústria e a Bolsa de Cerais de Buenos Aires são otimistas e falam numa colheita entre 42 e 44 milhões de toneladas. Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) aposta numa colheita de 47 milhões. Muito acima do mercado, que já fala em apenas 38 milhões de toneladas. Mas não importa a fonte, o certo é que o sol atrasou o plantio, prejudicou o desenvolvimento da planta e deixou os produtores desolados. “Não tem boas notícias. Será a pior safra dos últimos 10 anos. E a colheita nem começou. O cenário pode mudar”, diz Cristian Russo, chefe do departamento agrícola da Bolsa de Rosário.

Segundo Russo, a situação é complicada e não há um horizonte muito animador. “A produtividade média na safra passada foi de 3.125 kg por hectare. Neste ano, quando as colheitadeiras mal começaram a trabalhar, há produtores que esperam médias de 2.300 kg. E não há previsão de grandes volumes de chuvas até o fim de março, o que poderia reverter a situação em algumas províncias do país”, explica.

Impacto econômico

A Bolsa de Cereais de Rosário afirma que a quebra da safra argentina está estimada, até o momento, em US$ 6,5 bilhões. “Esse volume representa 0,7% do PIB projeto para 2018”, diz Emilce Terré, chefe do departamento econômico da BCR. O governo argentino, que até o ano passado projetava um crescimento de 3,4% em 2018, está revisando os números para 3%, por causa da seca. “O impacto direto, só para os produtores, será de US$ 1,5 bi. O restante será sentido pela cadeia de logística, alimentos, exportação e outros setores que estão diretamente ligados com o campo”, explica. A queda em produção também resultará numa redução de 21% nas exportações, em volume. A Argentina é o maior exportador de farelo e óleo de soja do mundo.

Para Emilce, as perdas na Argentina têm sustentado as cotações em Chicago, embora as perdas no país já estejam precificadas. “Há muito tempo o mercado vem especulando com a safra do país, o que tem sustentado bons preços. Neste momento, acredito, as cotações vão estar em sintonia com o plantio e o desenvolvimento da safra americana. Há chances de repique por causa da nossa safra? Há. O USDA trabalha com uma quebra bastante conservadora. Talvez aja um choque quando as projeções deles para Argentina caia ainda mais”, opina.

Resposta

Com um cenário como esse, como incentivar o produtor a continuar acreditando na atividade? Nesta semana, o governo da Argentina anunciou uma série de medidas para atenuar o impacto da crise. O Banco Central do País, por exemplo, vai aumentar o prazo para quitação de débitos agrícolas.

Segundo o Ministério da Agroindústria, o governo vai anunciar um pacote de medidas para que os produtores possam tomar crédito com um prazo de carência maior e com mais benefícios fiscais. “A medida é essencial para dar ânimo aos produtores, principalmente para a safra de trigo, uma cultura importante para o país”, diz Emilce Terré.

Fonte: Gabriel Azevedo, enviado especial , Gazeta do Povo

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