A HISTÓRIA DA LENDÁRIA CBT – COMPANHIA BRASILEIRA DE TRATORES

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A companhia brasileira de tratores (CBT) surgiu através do anseio da norte americana Oliver em instalar uma linha de fabricação de tratores agrícolas pesados no Brasil em 1959, na época a legislação vigente determinava que o índice de nacionalização alcançasse os 70%. O seu primeiro projeto apresentado, que contemplava um trator de 3,5 toneladas com motor Perkins de 80 cv não foi selecionado pelo órgão. Participaram do mesmo certame na época outros 19 fabricantes estrangeiros, entre os quais a CASE que foi a selecionada. No entanto, a CASE, que era associada ao grupo nacional Indústrias Pereira Lopes S.A, desistiu do empreendimento, e assim a Oliver foi convocada para substituí-la.

Em consequência, no mês de novembro de 1960 foi criada a Companhia Brasileira de Tratores – CBT. A produção teve inicio em 1961, em São Carlos (SP), já com elevado índice de nacionalização de 78,8%, surgia então o modelo 950, de 3,7 t, com motor diesel Mercedes-Benz OM-321, de seis cilindros e 72 cv, seis marchas a frente e duas a ré e freios a disco duplo na saída do diferencial, cuja capacidade máxima de tração é de 5 toneladas, este foi então o primeiro trator pesado fabricado no Brasil.

Três anos depois, o 950 ganhou mais potência, com um motor Perkins de 80cv, sendo renomeado de 1020, a este modelo, já 100% nacional, seguiram o 1090 e o 1105 (motor Mercedez-Benz de 100 cv), ambos com porte e potência adequados para tracionar implementos pesados.

Em 1971, dez anos após o arranque da fábrica, a CBT produziu 14.340 tratores, pouco mais de 10% do total do país, no período. Esse volume correspondia a quase um terço do mercado anual de unidades pesadas.  A essa altura, os vínculos com a Oliver já haviam sido desfeitos e a CBT passara a desenvolver seus próprios produtos, inclusive scrapers hidráulicos rebocados, lançados no final daquele ano.

Já no ano de 1975, além do trator 1090 e o 1105, a CBT dispunha de dois outros modelos leves, sendo: o trator 1000, que foi lançado em 1970, com 2,7 toneladas, bitolas reguláveis, motor Perkins de 56 cv e o outro trator era o 1065, com 59 cv, motor Mercedes-Benz. Toda a publicidade da CBT destacava a resistência de seus produtos, lembrando que eram os únicos tratores brasileiros de rodas com chassi.

A CBT manteve um nível de produção crescente ao longo da primeira metade da década de 70, dominando 19% do setor, até sofrer um golpe que se revelaria mortal para a empresa. Em 1977, aconteceu o retorno da Ford ao mercado brasileiro de tratores pesados, com isso a produção da CBT despencou em mais de 69%. Nos anos seguintes, a CBT começou a reagir, porém, antes da recuperação da queda anterior, em 1980, uma grave crise econômica que abalou o país, com reflexos importantes sobre a agricultura dificultou novamente a retomada da empresa.

Uma das principais características da CBT era a elevadíssima verticalização, favorecida por sua capacidade de projeto e pela disponibilidade de uma grande fundição própria, o que conferia a empresa certa flexibilidade no lançamento de novos produtos em momentos de contração do mercado. Sendo assim, para manter um permanente movimento de ampliação e diversificação de sua linha de produtos, lançaram em 1981 os modelos 3000 e 3500 a álcool, equipados com motores Dodge de ciclo Otto, sendo anunciados como a primeira frota de tratores a álcool do mundo, porém sem sucesso. Continuamente foram lançadas as séries 2000, 4000 e 8000 a diesel, em diversas versões, sempre com a motorização Perkins, Mercedes- Benz e mais tarde MWM. No ano de 1986 saiu o primeiro trator 4×4 da marca, o modelo 8060, com motor Mercedes-Benz de 110 cv e eixo dianteiro ZF, que segundo a empresa, oferecia o menor raio de giro da categoria.

A CBT possuía projetos muito mais ousados, como fabricar seus próprios motores e com eles lançar uma linha de utilitários, tratores leves e mais adiante, caminhões, ônibus, além de um audacioso projeto de aeronaves, denominada RPV BQM-1BR (abandonado por falta de apoio dos órgãos governamentais). Após transcorrer oito anos de desenvolvimento, tais planos foram anunciados a imprensa no ano 1985, onde segundo a empresa, em dois anos e meio suas instalações estariam preparadas para iniciar a fabricação de motores. Três foram às unidades desenvolvidas, toda de ciclo diesel, quatro tempos de baixa rotação: DM 301, DM 401 e DM 602. A CBT chegou ao extremo de verticalização projetando e fabricando bombas injetoras e os tubos compressores para os novos motores, até mesmo diversos maquinários utilizados no processo produtivo eram de construção própria.

O primeiro veículo a ser lançado com os novos motores seria o utilitário batizado de javali, que estava pronto desde 1987, porém, lançado no final do ano seguinte durante o  XV salão do automóvel, ainda como protótipo. O Javali que foi o primeiro jipe turbo do país, só se daria em 1990.  O jipe era fabricado pela MPL Motores S.A, instalada em Ibaté (SP), subsidiária criada pela CBT especialmente para a produção de motores utilitários.

A imprensa especializada da época, em teste do utilitário classificou o Javali como um projeto tosco e ultrapassado e, como se veria, de baixa qualidade de fabricação. Teve acolhida discreta, ainda assim vendendo cerca de 200 unidades no ano do lançamento.

Afastada da realidade, a ambiciosa política de investimentos da CBT cobraria seu preço. As vendas de tratores estavam estacionadas em torno das 3.000 unidades anuais, enquanto seus concorrentes vendiam cinco ou seis vezes mais. No início da década seguinte, as medidas liberalizantes do governo Collor escancaravam o mercado brasileiro aos veículos estrangeiros; enquanto isso, no uso diário os jipes Javali mostravam seus defeitos, provando à empresa – ainda que esta não o reconhecesse – que o desenvolvimento de automóveis e seus periféricos era tarefa muito mais complexa do que poderia imaginar.

No final de 1993 foi suspensa a fabricação do Javali; a produção de tratores caía continuamente (de 883 unidades em 1991 para 214 em 1994), cessando totalmente em 1995. Em outubro de 1997 a CBT teve a falência decretada. Os trabalhadores, cujo salário acumulava até dois anos de atraso, assumiram a massa falida. Ainda tentaram firmar acordo com a empresa soviética Lada para construir seus veículos no Brasil mas não lograram sucesso. Finalmente, em março de 2000, os imóveis de São Carlos foram vendidos à TAM, que ali instalou seu Centro Tecnológico e um excepcional museu aeronáutico. Cerca de 111.000 tratores e um milheiro de jipes foram fabricados pela CBT em seus pouco menos de 35 anos de existência.

Os tratores fabricados pela CBT contribuíram diretamente no desenvolvimento da agropecuária brasileira, abrindo novas fronteiras agrícolas e transformando áreas improdutivas em grandes celeiros. Nos dias de hoje, os tratores da CBT ainda são facilmente encontrados em plena operação no campo; outros se transformaram em monumentos históricos dentro de grandes propriedades rurais ou cidades que tiveram seu desenvolvimento alavancado pela agricultura; ou ainda, tem seu nome estampado nos maiores veículos de comunicação, através de documentários de grandes empresários de sucesso, que relatam o inicio de suas atividades operando um velho e bom trator CBT.

Luciano Mato Grosso

Texto original em: http://www.lexicarbrasil.com.br/cbt/

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